O atraso do lançamento do texto desta semana foi premeditado já que aguardava que fossem noticiadas as orientações estratégicas para o sector ferroviário.
Portugal está decididamente apostado em não investir na ferrovia. Aquilo que é uma evidência por essa Europa fora, o contributo da ferrovia para o desenvolvimento sustentado e integrado das regiões menos urbanas, continua a ser tabu em Portugal. É preferível meia dúzia de estradas a uma via ferroviária competitiva e capaz, veja-se as orientações que o PROT de Trás-os-Montes vai seguir.
Mas falemos da chamada rede convencional, cujo termo altamente degradante me perturba. Para mim é tão ou mais importante do que a Alta Velocidade. Essa apelidada rede convencional cobre 8 milhões de pessoas em Portugal, chega a pontos recônditos e a mais chegaria se houvesse vontade disso. Falemos no Douro, seria de vital importância o restabelecimento da ligação Porto-Salamanca. O corredor do Douro seria nos dois sentidos e não apenas concentrado na cidade Invicta. Mesmo o Porto ganharia com uma ligação deste género, o turismo dinamizar-se-ia atingindo um público potencial de grande qualidade e ainda não explorado, a economia de trás-os-montes e das cidades mais próximas da via-férrea certamente desenvolver-se-ia. Aquilo que há 17 anos serviu para encerrar a linha está obsoleto. As novas condições de mercado, a abertura à Europa justificam esta linha, quanto mais não seja pelo interessante produto turístico. Mas tive acesso a estudos que justificam de sobremaneira este troço do ponto de vista comercial e estes não falseados em meu proveito.
Aqui entra a Alta Velocidade. A ligação Aveiro-Viseu-Salamanca, não considerada prioritária esmagaria economicamente esta solução, mas no entretanto destas indefinições, e porque os carris estão lá, e porque Espanha quer, a linha do Douro até Salamanca justificar-se-ia, e mais, mesmo depois não seria viável que Trás-os-Montes fosse a Aveiro para chegar a Espanha. Mesmo com rede “convencional”, desde que competitiva e para isso 120 a 140 km/h seriam suficientes, mesmo que a electrificação não fosse uma opção inicial, este troço seria competitivo à respectiva escala. Até porque depois gera-se a mesma discussão das auto-estradas, pagam-se desde que haja alternativas. O Douro e Trás-os-Montes estão economicamente deprimidos, duvido que a Alta-Velocidade esteja ao alcance de todos, pelo que uma solução em rede “convencional” seria muito bem-vinda. Neste caso vêem de Espanha bons ventos e seguramente excelentes casamentos.
Resta dar o meu apoio incondicional à ligação Lisboa-Madrid. Mas no actual contexto de restrições económicas e contenção acho completamente despropositadas as ligações Lisboa-Porto e Porto-Vigo. A primeira porque o Alfa Pendular, num contexto da linha do Norte completamente recuperada (e já não falta muito) faria a viagem em 1h30 – 1h45 (velocidade de 220km/h em cerca de 330km), mais 10 minutos que a solução de Alta-Velocidade. Imagine-se os milhões que se poupariam. À escala do nosso país era perfeitamente aceitável e note-se que o governo já cortou todo o financiamento à modernização da linha do Norte para que não nos apercebamos dessa realidade. Depois a ligação Porto-Vigo que se fará em 220km/h, actualmente a velocidade comercial do Alfa Pendular, e que aproveitará o troço existente entre Porto e Braga, a questão é se assim for para quê um investimento em novos comboios e novos traçados se o objectivo é o mesmo que poderia ser alcançado com o Alfa.
Uma última nota para referir os comentários de Artur Cascarejo ao Jornal de Noticias, já aqui falei sobre a (in)utilidade de um aeródromo em Alijó mas agora percebo a razão da sua quase obsessão pois referiu nessa noticia que do Porto ao Pinhão são 4h30m de viajem de comboio contra os 90 minutos de carro. A razão pela qual a Linha do Douro tem adquirido alguma competitividade é porque a viagem é de tempo semelhante à do automóvel, cerca de 90 minutos até à Régua e mais 25 minutos até ao Pinhão. Ou seja muito, longe das 4h30m, do Porto ao Pinhão, o serviço Interregional demora pouco mais de 2 horas.
Até para a semana.
 
Luís Manuel Almeida
MsC Ciências Engenharia
UTL-IST Lisboa 2006
 
publicado por Luís Almeida às 12:54