“A vila do Pinhão é um dos locais mais aprazíveis do Douro. Tem qualidade de vida, algum comércio, uma identidade própria e uma paisagem deslumbrante.” Foi desta forma que o Jornal de Notícias, o mais lido do país, se referiu ao Pinhão no dia em que fez capa com a nossa vila.

Mas em semana de comemoração do quinto aniversário da demarcação como Património Mundial nem tudo foram boas recordações. À parte da já velha questão de que a denominação nada mudou, a maior farpa veio do executivo liderado por um homem da região. Teixeira dos Santos, ministro das Finanças, anunciou categórica e arrogantemente que o Governo não pode ser o Pai Natal do Douro. Subscrevo aqui a resposta de alguns autarcas da região que sabiamente afirmaram que não esperavam tal coisa mas que também não desejavam que o governo fosse o empecilho que tem sido.

A verdade é que de Belém só têm saído medidas que afectam profundamente a região e é contra-senso pedir um desenvolvimento quando as bases da sustentabilidade social e económica são cortadas. Os exemplos já foram neste blog amplamente abordados mas recordemo-los que nunca é demais: a reorganização da educação, da saúde, dos correios, da guarda nacional republicana, a questão da ponte, a supressão contínua de comboios que neste Natal sofreu mais uma curiosa alteração. Com este tipo de condicionantes um estímulo da economia ou mesmo um estímulo social só com um grande milagre. E como tal coisa não abunda nos dias que correm resta-nos lutar todos juntos contra a maré de forma a podermos fazer mossa em Lisboa e impedir que não nos seja tirado aquilo que por direito devemos ter.

O Douro é hoje uma das regiões mais deprimidas da União Europeia, se Portugal é o canteiro, o Douro é visto como a erva daninha desse canteiro. Mas isto só acontece devido à inépcia daqueles que têm responsabilidade na região. Pedro Perry admitiu, em entrevista ao JN, que os autarcas locais terão mea culpa na situação a que tudo chegou. Eu vou mais longe, e neste contexto de quase abandono do governo, atribuo total culpa aos autarcas locais não só desta geração mas também de outras que precederam e que perante a evidente falta de apoio da administração central pouco ou nada fizeram acomodando-se à sombra de títulos que nada acrescentaram. A visibilidade da região é maior mas o turista que hoje vem, não vai voltar porque não teve as infra-estruturas que esperava. E não falo de resorts de luxo. O Douro não pode ser um cantinho de alguns muito poucos com hotéis fechados para si mesmo. Não é esta a personalidade e o carácter dos durienses, não é esta a identidade da região.

É preciso pensar também nos que cá vivem e dar-lhes as condições necessárias em igualdade com o resto do país. Mais do que turismo o Douro é suor, é trabalho, são pessoas que durante anos lutaram do raiar ao pôr-do-sol para tornar este solo tão produtivo e tão capaz de produzir um néctar único.

Para concluir a estranheza pela ausência das comemorações do quinto aniversário da demarcação de Património Mundial o que acabo por compreender. Uma comemoração iria chamar demasiado a atenção para o que deveria ter sido feito e não foi e isso não interessa ao Governo. Estamos numa situação em que ninguém sabe quem tem poder administrativo sobre a região pois por falta de dinheiro extinguiu-se a associação que assegurava esta função. A demarcação física da área de património é esperada desde 14 de Dezembro de 2001 mas nunca apareceu. E já que falamos de comemorações, as dos 250 anos do Douro deixaram também muito a desejar. Comemorações elitistas longe daqueles que deveriam ser homenageados e que verdadeiramente contribuíram e contribuem todos os dias para esta região. Comemorações longe das pessoas, dos durienses e longe mesmo do Douro. Terminaram em Bruxelas, ao que parece, com uma degustação de vinhos foi pena não terem convidado as pessoas que trabalham todos os dias para que esse seja o mais precioso néctar.

São estas as histórias e a mágoa daquela região onde o rio é cor de rubi, o rubi mais precioso que outrora surpreendeu como mais nenhum a Baco.

Luís Manuel Almeida

MsC Ciências Engenharia

IST-UTL Lisboa 2006

publicado por Luís Almeida às 11:47