Começa a ser um (mau) hábito eu não cumprir as minhas próprias “profecias” para este blog. Afirmei que não escreveria mais em 2007, mas fi-lo numa altura em que o encerramento (já certo) do SAP de Alijó não se afigurava, no entanto, tão próximo.

E regresso, antes do previsto, exactamente para focar esse assunto. Deixo as tais visões de 2008, para o mês de Janeiro e para… 2008.

Sobre o encerramento das urgências/blocos de partos tentarei ser objectivo, directo e pragmático. E para começar, que tal tentar perceber o que têm em comum Vila Pouca de Aguiar, Alijó, Anadia, Mirandela e Murça?! Fácil, são todas localidades do interior norte do país. Só com Anadia a destoar ligeiramente… E que como que quem esquece as suas raízes, o Governo sob a capa protectora do seu líder continua intransigente e arrogantemente a fechar tudo o que se mexa acima do Guadiana e à esquerda do Marão.

Já antes aqui referi e tenho que reiterar esta ideia. Portugal é o único país, do mundo dito civilizado, onde a criação de acessibilidades significa encerramento de serviços. A falta de argumentos do Ministro da Saúde e do Governo é tão grave que se socorre da A24 para se justificar. E se as actuais localizações destes blocos encerrados até podem estar relativamente acessíveis dos hospitais centrais correspondentes (curiosamente, exceptuando Anadia, é Vila Real), não se podem esquecer as centenas de outras localidades que neste país na onda do choque tecnológico e com novas oportunidades que dão “canudos” a troco de nada, sofrem um calvário para chegar à Vila. Só do Pinhão é quase uma hora.

Tanto se insiste que não devemos atulhar os hospitais centrais com problemas menores, e o que acontece? Fecham-se os centros intermédios. Tantas vezes, aquelas pequenas ninharias que são suficientes para nos atormentar, ou as sempre complicadas febres dos bebés que tão fácil e rapidamente podem ser tratadas num centro de saúde, onde o médico é muitas vezes o de família, ou já conhecido, terão agora que ser atirados para a impessoalidade de uma urgência de hospital central. De alguns minutos, passaremos a intermináveis horas de espera. O Governo responderá que existe a linha “Saúde 24”, mas tal como na polícia há a necessidade de proximidade, acho que a “saúde de proximidade” seria um conceito mais interessante e mais eficaz.

Mas afinal do que falamos nós? Dinheiro! Gira tudo à volta do dinheiro. Estou certo que o Ministro sabe perfeitamente que as urgências encerradas deveriam ser requalificadas, eventualmente ajustadas, mas não encerradas. O problema é o dinheiro que abunda para campanhas turísticas no Quirgistão mas que não chega para que os nossos bebés nasçam em Portugal, para que as urgências básicas num Portugal triste, profundo e deprimido se mantenham abertas, para que tenhamos dignidade no momento da doença. O “vil metal” que chega para assinaturas glamourosas de tratados, para conferencias e cimeiras de impressionar o mundo, mas que não existe para desenvolver um país que continua a duas velocidades, e onde a lenta está cada vez mais lenta!

Para terminar não posso deixar de abordar uma questão que ainda mais me preocupa que o encerramento em si. Tenho ouvido nos corredores de Alijó que a manifestação que se fez é puramente marketing político. Ouvi dizer que nem populares, nem autarcas estarão preocupados porque há perspectivas que apareçam clínicas privadas ou porque o sistema de transporte dos bombeiros é já altamente eficiente. Quero acreditar que isto é apenas rumor… mas se não for, que fique bem claro que se Alijó se está a marimbar, existem outras 18 freguesias no concelho que não estão.

Agora sim, um bom ano de 2008, de preferência sem mais polémicas… até porque vêm ai um ano longo… 366 dias!

 

Luís Manuel Almeida

publicado por Luís Almeida às 21:56