EVOLUÇÃO SEM PESSOAS... A IMPORTÂNICA DE UMA REDE DE TRANSPORTES

 

 

Abordei no texto da semana anterior a necessidade de uma reorganização da actividade comercial do Pinhão apontando medidas concretas possíveis e indicando um dos principais ingredientes para que tal seja possível: os consumidores, as pessoas, os indivíduos, os investidores, as empresas, os serviços. Enfim… chamem-lhe o que quiserem!

Na sociedade actual só existe uma forma de introduzir pessoas e investimentos em determinados locais, é com boas acessibilidades. Um bom sistema de transportes é por isso fundamental para que determinada região ou localidade se desenvolva, mas mais importante papel desempenham as infra-estruturas de transportes.

Ora bem… lançado o mote, analisemos o que (não) temos.

Por causa das obras da ponte, o Pinhão perdeu as ligações rodoviárias ao Douro Sul e ao resto do país, restam-nos hoje as ligações a Vila Real e Alijó e uma ligação de estudantes que também faz serviço comercial mas que não se realiza todos os dias. A importância desta ligação de estudantes é que passa em Casal de Loivos e Vilarinho de Cotas, entre outras freguesias, que, ou muito me engano, ou não dispõem de qualquer outro tipo de ligação ao Pinhão e/ou Alijó.

No plano rodoviário, as estradas para Sabrosa/Vila Real e Alijó, além de em bom estado genericamente apresentam muitas curvas e limitações de velocidade que pura e simplesmente impedem melhores velocidades, mais segurança e menos tempo de viagem. Os 36 km que nos separam de Vila Real, demoram aproximadamente 50 minutos e os 18 de Alijó quase meia hora, isto, cumprindo escrupulosamente as limitações de velocidade. Só a ligação à Régua, aquela que agora nos está cortada, e por consequência à A24 é que escapa com excepção do troço entre o Pinhão e o lugar das Bateiras que carece de obras rapidamente. Foi prometida a renovação total deste troço há poucos meses, estou à espera, até porque a fonte foi (deveria) ser fidedigna.

No plano ferroviário os sintomas de desertificação agudizam-se com a CP a cortar pela raiz as poucas ligações ferroviárias colocando comboios em horários impraticáveis e desajustados, e mesmo agora com a ponte fechada, nada faz para cativar clientes entre o Pinhão e a Régua e vice-versa. Desde 1990, altura em que o nosso actual Presidente da República resolveu amputar toda a rede ferroviária e ao qual poucos troços escaparam que o Pinhão tem sido desrespeitado nesta matéria. Desde as péssimas condições de transporte, aos transbordos e plataformas sem cobertura. Portugal é mesmo o país da União Europeia com a mais pequena rede ferroviária, proporcionalmente calculada ao território, mas o primeiro no que respeita a troços desactivados. Numa altura em que se procuram soluções ambientalmente favoráveis e Portugal assinou Quioto, é no mínimo repugnável, especialmente depois de ouvir Mário Lino dizer que vai encerrar mais troços. Que o povo não se cale… porque o futuro é o comboio e não necessariamente o TGV.

Por aqui se vê como está o Pinhão em matéria de acessibilidades, mas o concelho em si, também enfrenta alguns problemas, que terão que ser resolvidos já que o Dr. Artur Cascarejo pretende elevar Alijó a cidade. Mas centremo-nos na nossa terra.

O Pinhão para aspirar a uma efectiva dinamização da economia local e aposta clara no turismo precisa de ter movimento de pessoas e serviços, precisa que estes elementos cheguem e aqui a rede de transportes desempenha um papel fundamental. Até porque o comércio local só se aguentará nos moldes que referi no primeiro texto se houver consumidores.

Pois bem, o concelho carece de uma rede de transporte rodoviário realmente eficaz e atractiva. A aquisição de mini-autocarros semelhantes aos do Corgo Bus, ou da Carris, poderiam dinamizar e estimular o movimento das pessoas entre as diferentes aldeias e vilas do concelho. É preciso estimular a mobilidade e descentralizar Alijó pelas restantes vilas. Localmente, haverá no concelho, diversas vilas de “grande dimensão” capazes de atrair populações em busca dos serviços que estas ofereçam. Por exemplo, o Pinhão, oferece ligação ao modo ferroviário, mas este poderia ser utilizado por todo o concelho se existissem ligações adequadas e fornecedoras e colectoras do comboio. Mas dada a centralidade do Pinhão, não só de Alijó viriam os potenciais passageiros do modo ferroviário, mas também de São João da Pesqueira, Tabuaço (que se encontra mais perto do Pinhão que Régua) e Sabrosa. É só preciso estimular a vinda ao Pinhão, recordamos que em tempos idos o Pinhão era, por excelência, o ponto de encontro de todas as freguesias importantes da região, e que a Linha do Douro quando começou a ser construída tinha como único objectivo, chegar apenas ao Pinhão, só mais tarde se alargou até Espanha. Conseguida a tarefa de estimular as populações a usar o comboio e a fazê-lo a partir do Pinhão, a CP não teria mais argumentos para negar a boa ocupação dos comboios e certamente repararia da importância que o Pinhão teria e toda a região servindo melhor os nossos interesses.

Este estímulo seria a partida fundamental para que de uma vez por todas fosse reactivada a linha do Douro até Barca de Alva e consequentemente até Salamanca, já que o Parlamento Espanhol aprovou recentemente a reabertura do troço do lado de lá… De Espanha, vêm agora bons ventos…! Creio não ser por acaso que a AMTAD tem como duas das suas principais prioridades, a reabertura da Linha do Douro e o IP5.

Finalmente para que o abastecimentos à estação do Pinhão funcionasse efectivamente bastava que as estradas fossem melhoradas e em alguns casos eliminados alguns obstáculos. Hoje em dia, as estradas só têm curvas por caprichos, e de Alijó, tem muitos caprichos que sendo eliminados não poriam em causa nem a paisagem nem o ambiente. Assim, as pessoas sentir-se-iam mais seguras e incentivadas a usar o autocarro e a chegar ao Pinhão ou a outros pontos de interesse.

Para aqueles, que me criticam por falar e poucas medidas concretas indicar, eis a resposta, depois do estímulo comercial cujo possível molde lancei na semana passada deixo aqui uma forma concreta de movimentar pessoas, bens e serviços pelo concelho e para fora do concelho. A receita é simples: melhores estradas, uma rede de mini-autocarros concelhia que ligue as principais freguesias e promova as deslocações internas e entre as freguesias limítrofes ao concelho que mais relações têm, o caso de Ervedosa, Casais do Douro, Chanceleiros, Covas do Douro em relação ao Pinhão, e como consequência disto melhores ligações ferroviárias, mais mobilidade e mais desenvolvimento.

Já agora, escusado será dizer que uma nova ponte no Pinhão não poderá ser uma medida a longo-prazo.

As receitas são simples, mas o carácter cíclico de algumas das medidas a tomar faz recear algumas pessoas, mas alguém terá que dar o primeiro passo, e se pudesse, até eu o faria…

Até para a próxima semana!

 

Luís Manuel Almeida

(LECIST Lisboa 2006)

publicado por Luís Almeida às 13:22