TURISMO E... DESENVOLVIMENTO

Nas últimas três semanas deixei vários textos sob o tema geral “Começar pelo princípio” subordinando cada um deles a um tema específico. Termino hoje este ciclo de reflexão falando sobre o turismo, essa bandeira tantas vezes apregoada no Pinhão mas que na realidade não passa de uma fachada que desculpa certo tipo de coisas.

Está mais do que evidente que o Turismo não é uma realidade concreta no Pinhão. Com excepção do Vintage House e das duas Residenciais poucas mais actividades comerciais ganham com o pseudo turismo que se pratica no Douro. Para começar temos as operadoras turísticas que trazem os seus clientes de barco e levam-nos de comboio mas de trela. Assisti várias vezes às frenéticas assistentes das operadoras no processo de chantagem para com aqueles que gostariam de ficar mais um ou dois minutos ou somente tomar o cafezinho ou comprar uma lembrança. Lá dizem elas, se não se despacham, o comboio vai embora e não espera por ninguém. De facto são dados cerca de 10 minutos aos clientes para fazer a viagem entre o barco e a estação da REFER. É muito apertado para se fazer em passo de passeio. É por causa disto que digo que o turismo no Pinhão é uma fachada. Os operadores, talvez mais interessadas em financiar viagens espaciais, não permitem qualquer tipo de flexibilização aos seus rígidos e apertados roteiros. A Douro Azul tem um procedimento deste género muito recorrente, eu vi e ninguém pode negar o que vi! Isto para já não falar das condições de segurança e sobrelotação que alguns operadores parecem esquecer. A própria Croiseurope responsável pelas viagens de 6 dias no Douro, apesar de flexibilizar a saída do barco, coloca animação a bordo para cativar os clientes.

Bom, mas se calhar a oferta de diversão para o turista, ou de recreio, não é também assim lá muito diversificada. Já apontei neste ciclo de reflexão que a actividade nocturna é muito reduzida e os serviços comerciais estão encerrados nas horas de maior fluxo turístico. A Douro Azul refugia-se exactamente neste argumento quando confrontada com o seu “modus operandus” acima já relatado. Então terá que se percorrer um caminho de incentivo e desenvolvimento que torne o Pinhão atractivo para os locais e que consequentemente permita uma maior margem de manobra aos turistas fornecendo mais diversão e opções. Dá-me a ideia que já lá vai o tempo em que a paisagem chegava para cativar o turista. É necessário entretê-lo e dar-lhe bons motivos para regressar, até porque da paisagem levam-se fotografias e basta revê-las para evitar uma nova viagem. As ideias que fui deixando nestas ultimas semanas sobre um incentivo ao desenvolvimento comercial, uma rede de transportes concelhia eficaz e actividades culturais regulares e diversificadas podem perfeitamente ser pensadas, também, de acordo com os fluxos turísticos. A criação, por exemplo, de um evento comemorativos do Pinhão enquanto região demarcada do Douro e vila incluída na mancha de Património Mundial seria um atractivo mais abrangente do que os locais ou populações circundantes.

Neste momento o Pinhão está muito virado para si mesmo e para os visitantes oriundos das localidades circundantes, é necessário uma abertura ao turismo mais eficaz que passe pela criação de produtos e eventos destinados a este público. Desta forma o conceito de turismo, no Pinhão, seria muito mais benéfico para a economia local e esta zona deixava de ser apenas visitada com mais afluência no Verão. Os restaurantes, bares e estabelecimentos hoteleiros que actualmente só têm maior afluxo entre Maio e Outubro poderiam ter um negócio expandido a outros meses, tradicionalmente mais fracos. É necessário deixar a vontade, ao turista, de regressar outra vez e para isso só poderá contribuir uma diversificada e regular oferta cultural, um estímulo e incentivo ao comercio local e investimentos em certas áreas estratégicas que justifiquem, por exemplo, mais comboios, mais camas e mais serviços.

Ao longo destas três semanas e nestes quatro textos deixei ideias concretas, não necessariamente as únicas possíveis, sobre como estimular o Pinhão e um pouco o concelho (já que por muito que se ignore, a verdade é que Alijó enquanto concelho, começa no Pinhão) a pensar na inversão da tendência de desertificação a que se tem assistido. O objectivo aqui é tornar o Pinhão um bom sítio para viver e um pólo atractor de mais famílias que aqui possam encontrar um bom nível de vida. Esta é uma das minhas visões para o Pinhão! Consequentemente surgirão melhores condições para que o turismo se desenvolva e os comerciantes locais comecem a facturar uma maior fatia devida aos turistas. Não devemos cometer o erro do Algarve em que a região foi moldada para os estrangeiros e os locais quase que se sentem mal em viver lá.

Deixei algumas ideias que pretendem reavivar o “cósmico e cosmopolita” Pinhão que Miguel Torga tantas vezes referia no seu trabalho. São medidas difíceis de implementação porque mexem com áreas sensíveis de qualquer localidade, mas a necessidade destas medidas é imperativa face à actual conjuntura económica nacional e local. O seu carácter cíclico pode provocar algum receio mas há riscos que têm que ser corridos sob pena desta terra se transformar numa “quinta” e desaparecer no mapa. Deixar tudo como está e pensar que as coisas se resolvem sozinhas não é solução. No século XXI da tecnologia, desenvolvimento económico e social e da competitividade o Pinhão tem que apanhar o comboio com destino ao futuro sem paragens nem avarias e quando mais tempo demorar pior.

Se a terra não tivesse potencialidade e fosse um caso perdido então, provavelmente, estaria sozinho, mas como eu muitos partilham da visão que deixei nestas últimas semanas e há um punhado de pessoas dispostas a criar as condições necessárias para o Pinhão ser uma vila na verdadeira acepção da palavra e a tornar esta “eterna paixão” o melhor lugar para se viver na região. Quem não acreditar nesta possibilidade e nesta visão pelo menos não coloque obstáculos a quem acredita…

 

Luís Manuel

(LEC IST2006Lisboa)

publicado por Luís Almeida às 12:57