Há dias que certas afirmações, por mais adequadas que sejam, não são bem-vindas.
O acidente da passada quinta-feira na Linha do Douro levantou a questão da grave dificuldade de acesso de meios de socorro e emergência a pontos nevrálgicos do traçado. Felizmente os ferimentos nas pessoas envolvidas foram ligeiros e o comboio transportava cimento apenas. Até hoje a Linha do Douro e a nossa rede não tem tido acidentes com graves consequências humanas muito por conta do elevado grau de sofisticação e avanço que Portugal tem nas infra-estruturas ferroviárias. Excepção feita ao terrível acidente no final dos anos 80 na linha da Beira-Alta.
Temos o pior índice de mortalidade ferroviária, mas tal deve-se aos acidentes em passagens de nível, e isso é outra conversa.
Mas voltando à Linha do Douro, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Foz Côa, aquando do acidente de quinta-feira, pediu pela comunicação social que a REFER e o governo disponibilizassem equipamentos adequados de segurança para resposta a acidentes deste género. Tendo em atenção o rumo que as coisas têm levado neste país receio bem que este pedido apenas sirva para desculpar o encerramento deste troço sob o pretexto (falso) da falta de segurança. As gentes do interior já se foram habituando que se fazem muitas exigências acabam por perder tudo. É a triste realidade do nosso país!
Ainda há duas semanas abordei aqui o possível posicionamento estratégico deste troço ferroviário e a sua possível importância para a região. Dei argumentos que muito dificilmente caem se uma análise coerente e responsável for feita.
E note-se o comandante dos Bombeiros tem toda a razão e mais alguma a Linha do Douro pode revelar-se trágica se, e esperemos que não, um acidente deste género ocorra com um comboio de passageiros.
As soluções são simples, passam pela informatização imediata e instalação de CONVEL (controlo automático de velocidade) e comunicações rádio-solo em toda a linha além de Caíde e até ao Pocinho. São intervenções simples e cujo custo é largamente compensado pela segurança que estes elementos introduzem. Depois um comboio de socorro posicionado no Pocinho ou Tua capaz de dar resposta eficaz a estas situações já que por estrada tal torna-se impossível. A linha do Douro é das últimas no país que ainda tem distritos de conservação com pessoal da REFER a condução e manobra deste tipo de comboios não representaria um encargo de mão-de-obra adicional.
A questão é muito… mas mesmo muito simples, a Linha do Douro teria potencial, se devidamente explorada, para concorrer com os troços mais importantes do país: está dotada de características turísticas e pode estar dotada também de características comerciais relevantes se devidamente explorada. O Douro e Trás-os-Montes são uma região que precisam de uma via de desenvolvimento, de uma via de comunicação que permita a definitiva e sustentada afirmação da sua potencialidade.
Dêem-nos essa oportunidade.
Luís Manuel Almeida
MsC Engenharia Civil
IST-UTL Lisboa 2006
 
 
 
 
publicado por Luís Almeida às 18:00