Esta semana era para falar sobre o aborto e o referendo que leva os portugueses às urnas no dia 11 do próximo mês. Sei que este é um blog sobre o Pinhão e o Douro mas este assunto, de interesse nacional, também deveria aqui ser tratado. No entanto surgiu algo que me faz "empurrar" para a próxima semana a temática do referendo.E esta opção "editorial" prende-se com o anúncio da ministra da Cultura em Vila Nova de Foz Côa. Diz a senhora ministra que o Museu que nessa localidade vai nascer legitima a abertura da ligação ferroviária entre o Pocinho e Barca de Alva e ligação ao Porto. Aquilo que condeno não é o anúncio em si, que ainda estou para perceber até que ponto se concretizará na actual conjuntura de "arrumar a um canto" a rede convencional em prol de um elefante branco de alta velocidade. Para já não falar da intransigência da EDP na questão da barragem do Tua e no desejo do Ministro das Obras Públicas de encerrar todas as linhas de bitola estreita de Trás-os-Montes e Vale do Tâmega.
A verdade é que mais uma vez o Douro se subjuga aos interesses turísticos. Este é um caso em que o turismo até pode beneficiar a região, mas será legítimo a REFER, empresa totalmente pública, recuperar e manter uma infra-estrutura que apenas servirá interesses privados? Questiono-me se as gentes de Foz Côa permitiriam que a reabertura da linha se destinasse apenas a fluxos turísticos! Espero que não e espero que atendendo aos interesses de Espanha neste troço veja um ou dois comboios Intercidades diários entre o Porto e Salamanca com paragens em estações de relevante interessante, como evidentemente o Pinhão. O serviço comercial que hoje circula no Douro tem uma forte componente turística. Muitos dos turistas utilizam o serviço regular para chegar a região e as próprias operadoras fazem uso desses serviços ao invés de alugarem comboios especialmente destinados a esse fim. Introduz uma flexibilidade importante na oferta turística. Não sendo cidade, mas das estações com mais procura da linha do Douro essa paragem seria evidente não só para cativar fluxos do Porto, como actualmente faz, como de Espanha. Mas estas são conjunturas que só deverão ser analisadas quando esta reabertura estiver mesmo no terreno. Eventualmente não descarto que a RENFE ao abrigo da abertura do mercado de passageiros possa com a CP e demais operadores turísticos explorar esta linha. Tal é viável e parece-me razoável se o Douro seguir no trajecto correcto de desenvolvimento pelo que estes não serão propriamente devaneios de um jovem universitário com a mania que tem conhecimentos.
A confirmar-se esta reabertura e a definitiva afirmação do Douro no panorama turístico será preciso mais do que a reabertura mas a reconversão de toda a linha desde Caíde a Barca de Alva, pelo menos no que respeita à autonomia electrónica do troço.
No dia em que isto acontecer, se acontecer, e espero que aconteça, a Linha do Douro torna-se na segunda linha do país com dois pólos urbanos significativos nas suas extremidades onde a procura se fará nos dois sentidos. Se olharmos com atenção veremos que mais nenhum troço ferroviário neste país, com excepção da linha do Norte, apresenta uma bipolarização evidente. Penso por vezes que o receio de Lisboa é que a Linha do Douro se sobreponha à do Norte em termos de proveitos. Tal quase acontece actualmente, a Linha do Douro é das mais lucrativas do país devido aos fluxos turísticos e ao comboio turístico e mais seria se estivesse totalmente recuperada, é que é também a mais cara do país. Atente-se no que seria para o governo perceber que o troço ferroviário onde enterrou (particularmente agora depois do TGV) mais dinheiro afinal é apenas o segundo mais lucrativo. Custava aceitar, mas como disse várias vezes o interior de Portugal está mais perto de Bruxelas que Lisboa, pelo que este cenário não seria de estranhar, evidentemente a longo prazo.
Para concluir queria só deixar a referência aos números do Eurostat que apontam Portugal como o terceiro país com mais passageiros por comboio e quilómetro da União Europeia. E os dados que eu registei por auto-recriação ao longo destes últimos 5 anos de viagens na Linha do Douro não se afastam muito da média. Pergunto como pode a CP encarar a linha do Douro como desnecessária?!
Até para a semana, certamente no Sábado.
 
Luís Manuel Almeida
MsC Engenharia Civil
IST-UTL Lisboa 2007
Duas notas de redacção:
- Num dos textos anteriores referi que as Festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição não se realizariam este ano. Acontece que a comissão nomeada em Julho de 2006 não assumiu esse compromisso embora tenha já surgido um grupo de cidadãos dispostos a não deixar morrer as festividades.
- Quanto à questão da Escola do Pinhão, parce que dei a entender redundantemente que esta iria encerrar. Já fiz os esclarecimentos que considerei necessários e chamo a atenção para a Portaria 127-A/2007 que define o reordenamento escolar. Esta portaria tem um link em www.pinhao.com.sapo.pt ou alternativamente poderá ser consultada em http://dre.pt.
publicado por Luís Almeida às 18:10