O que aconteceu ontem à noite nas declarações sobre os resultados do referendo vem na linha da mediocridade em que decorreu uma campanha que foi tudo menos informativa privilegiando ao invés uma luta entre movimentos que em nada dignificou o país.

Se a questão não era política, se os partidos não pretendiam tirar ilações politicas, se não se tratava de um jogo como se pode falar em “vitória”. No máximo ouviram-se os portugueses e as suas intenções quanto a matéria em referendo. Ninguém ganhou e ninguém perdeu, simplesmente se percebeu qual o rumo que as coisas têm que tomar.

Sobre os resultados em si há três aspectos que gostaria de abordar aqui.

Primeiro, a análise dos resultados indica aquilo que as previsões já apontavam, o grande Porto, foi uma das regiões de viragem de opinião que condicionou fatalmente o resultado do escrutínio. Uma região esmagadoramente votante no “Não” em 1998 adoptou agora uma posição contrária. Tal como Castelo Branco. A sul agudizaram-se os resultados já verificados em 1998. Quanto ao Pinhão aconteceu exactamente esse fenómeno, em que o “Sim” teve mais 10% de votantes e o “Não” menos 10% de votantes. O facto de ter existido o recenseamento de muitos jovens neste período poderá ter contribuído decisivamente para este regorço de opinião. Quanto ao concelho o “Não” obteve quase 60% dos votos destacando-se as freguesias de Casal de Loivos, Vale de Mendiz e Pinhão a serem as únicas com o “Sim” a ter mais votos. Revela uma certa tendência de cisão norte-sul no concelho semelhante à generalidade do país. Destaque ainda para Favaios onde o “Sim” arrecadou mais um voto que o “Não”.

Voltando-me agora para o rescaldo politico desta eleição, os restantes dois aspectos.

Se de facto estava à consideração a questão de igualdade de Portugal aos restantes países desenvolvidos da Europa nesta matéria. Lanço o desafio para que nas matérias verdadeiramente essenciais e mais estruturantes se lute por seguirmos o exemplo de países desenvolvidos. Educação, saúde, administração pública deverão ser os restantes temas em que deveremos seguir o caminho civilizado. Se já somos civilizados na questão da interrupção voluntária da gravidez, comparativamente aos países modelo de civilização, devemos talvez então aproveitar a onda e estender esta civilização às restantes matérias.

Finalmente gostava de deixar a minha interpretação dos resultados e qual acho que deveria ser a actuação perante o que este referendo ditou. Espero muito sinceramente que depois não digam que estas são desculpas de “perdedor”. Como disse nunca encarei esta questão como um jogo onde se perdesse ou ganhasse o que quer que seja. Eu não “perdi”, estou de consciência tranquila com o meu voto apenas e acho repugnante para as próprias mulheres que se grite “vitória” perante uma questão tão sensível. Isso sim a verdadeira humilhação. Mas esclarecimentos à parte. Sugeriu-se na noite eleitoral que por uma questão de coerência com 98 se deveria atender aos resultados. O referendo não foi vinculativo essa é a atenção que deve ser dada e a coerência que tem que se manter. Nos referendos a abstenção é uma opção, no actual quadro jurídico português, pelo que se essa foi a “vencedora” o caminho a seguir deveria ser o ditado pela maioria dos portugueses, tal como foi em 1998. Aí estava a coerência. Evidentemente não quero com isto dizer que sou contra a adopção da opção da maioria. Mas se vamos subverter as regras da constituição e do referendo então mude-se a lei.

Na próxima regresso ao âmbito local neste blog para falar da posição que as diversas câmaras municipais da região têm assumido no actual quadro de perspectiva de alteração em acessibilidades e equipamentos.

 

Luís Manuel Almeida

Msc Ciências Engenharia

IST-UTL Lisboa 2007

 

RESULTADOS PINHÃO (2007)

 

2007

1998

Sim

196 (62,0%)

52,2%

Não

115 (36,4%)

46,6%

Votos Nulos

0 (0%)

0,4%

Votos Brancos

5 (1,6%)

0,8%

Abstenção

59.0%

68,2%

Eleitores

771

788

 

publicado por Luís Almeida às 15:02