Lisboa, 26 de Junho de 2027
 
Caro João*
 
Tenho acompanhado com alguma preocupação a concretização das previsões de desertificação por esse país fora. Soube recentemente que o Pinhão ficou sem a designação de vila e que a própria autonomia administrativa se perdeu. Creio que o Pinhão irá seguir o mesmo caminho que Vale de Mendiz ou Casal de Loivos e tornar-se-à mesmo uma aldeia fantasma só habitada pelos turistas em tempo de verão, que agora é todo o ano.
João, sei que adoras essa vila, eu também. Mas não achas que está na altura de saíres daí com a tua família e ires pelo menos para o Porto? Que futuro pretendes dar ao teu filho. A escola está a mais de 30 km, em Vila Real, não há comboios nem autocarros. Quase todas as casas e apartamentos são para alugar aos turistas. Não há supermercados, frutarias ou padarias e só ficou um café. Os cinco hotéis que existem geram de facto muito dinamismo e muita vida mas o esquema de condomínio privado que adoptaram faz com que tudo ocorra ao ar livre mas dentro de quatro paredes. Vocês são apenas 50 pessoas. Até a António Manuel Saraiva já não se pode percorrer inteiramente.
Eu próprio estou a pensar ir passar aí férias, o hotel que construíram no local onde era a escola é dos melhores do país e sempre posso recordar como fiz o meu ensino básico. Bem sei que não é a mesma coisa, mas o Pinhão praticamente desapareceu. Os grupos privados tomaram conta de todas as lojas, terrenos e espaços do Pinhão, e apenas funcionam quando estes precisam de cativar clientes ou de oferecer produtos aos seus turistas.
João, recordo com tanta tristeza todos aqueles que no início do século se debateram contra esta situação e que na altura não conseguiram chamar a devida atenção. Recordo como hoje sucessivos presidentes da junta a descurarem a cultura, a não fomentar a natalidade e a fixação de famílias jovens e a terem que ceder, perante a falta de dinheiro, aos interesses privados, porque diziam que as matérias consagradas na constituição como nucleares não eram obrigação pública. Recordo o atrofio dos organismos públicos que não se tornaram competitivos, a câmara de Alijó que com o objectivo de ser cidade e esquecendo as restantes freguesias hipotecou o futuro do concelho. Recordo como se fosse hoje o dia em que a ponte foi fechada ao trânsito definitivamente, em que o acesso à praia fluvial começou a ser reservado aos utilizadores dos barcos, o dia em que a estação ferroviária fechou definitivamente sendo transformada em residência, o dia em que o último comboio passou para o Porto. Recordo também a ultima festa em honra de Nossa Senhora da Conceição, o último dia de funcionamento do centro de saúde, a perda da EB2,3, o fim do concelho de Alijó.
Nessa altura muitos se debateram e nada conseguiram. Recordo que nós tínhamos ideias e queríamos vestir a camisola com tantos outros que como nós hoje estão dispersos pelo mundo. Éramos cerca de 30 jovens cheios de vitalidade mas a quem o Pinhão não deu sequer a oportunidade de trabalhar no Porto ou em Vila Real e tudo começou quando em vez de mais habitação se construíram hotéis na Avenida Marginal. Em vez do estímulo da economia se acabaram as feiras, se encerraram os bancos e se fecharam as lojas.
João, pelo Pinhão somos capazes de tudo, é a nossa terra, mas hoje, como há 20 anos já parecia ser, é tarde demais. Pelo teu bem e da tua família sai dessa terra e recorda-a apenas um dia como aquela que te viu nascer.
 
                                                                                                                Um abraço
Luís Manuel
 
PS: Ao longo destes 30 anos não cheguei a ser presidente da Junta de Freguesia do Pinhão nem tive cargos políticos, limitei-me a ser engenheiro, não que tenha a presunção de pensar que poderia ter alterado o desfecho das coisas, ou que era o “special one” que iria revolucionar tudo, não era... Mas certamente teria tentado…
 
 
* personagem fictícia
 
 
Luís Manuel Madureira de Almeida
Msc Engenharia Civil
Instituto Superior Técnico – Universidade Técnica de Lisboa
publicado por Luís Almeida às 00:27