Se metaforicamente sempre se disse que Portugal é um país a duas velocidades, eis o caso em que tal deixa de ser figura de estilo e é literalmente verdade.
O encerramento decretado esta noite em Lisboa, da linha do Corgo é a prova mais do que clara que Portugal tem cidadãos de primeira e de segunda. Amanhã, pela amanhã, as dezenas de jovens que todos os dias usam o comboio para ir para a escola na Régua ou Vila Real ficam sem o seu meio de transporte. Sexta-feira, as dezenas de universitários que usam o comboio para ir para casa, vão de autocarro. Diariamente aqueles que ainda contavam com o comboio para ir trabalhar, resistindo (e muito bem) ao apelo de uma concorrente injusta que liga Vila Real à Régua em 7 minutos (contra os 50 do modo ferroviário), vão mesmo ter que usar o carro e contribuir para a degradação do ambiente. Estes são os cidadãos de segunda, que não tem direito a uma terceira travessia, a um novo aeroporto ou talvez a um projecto para as suas estações ferroviárias, assinado por Santiago Calatrava. Estes são os cidadãos cujo destino é traçado por decreto num qualquer gabinete de Lisboa.
Sobre este encerramento tenho duas teorias:
Primeiro: Como a Secretária de Estado dos Transportes não faz ideia que existe uma linha entre Régua e Vila Real em bitola métrica (tal como não sabia da linha Tua – Mirandela); assim que alguém lhe falou nisso encerrou-a para não ter que passar mais “vergonhas” ao desconhecer a sua existência. Que ninguém lhe lembre que existe uma linha entre Livração e Amarante ou Aveiro/Espinho e Sernada.
Segundo: A linha do Corgo seria das poucas em que os comboios até tinham uma ocupação razoável dado que satisfaziam movimentos pendulares para as cidades da Régua e Vila Real, sobretudo em zonas em que a A24 não chegou. Como, felizmente, não aconteceu nenhum acidente até hoje e até havia boas ocupações, em plena entrada na época “alta” destas linhas com enorme potencial turístico, o melhor seria mesmo encerrá-las, não fosse 2009 revelar-se mais um ano em que a procura excedia a oferta.
Desta forma sobra como alternativa o autocarro. Existem diversas companhias a explorar a ligação Régua-Vila Real pelo corredor desta linha ferroviária e por um corredor paralelo mas do outro lado do Corgo, passando por Santa Marta. O tempo de viagem dos autocarros é de mais de uma hora. As únicas ligações directas entre as duas cidades são os expressos cujo preço do bilhete é três vezes mais caro que o do comboio.
Basicamente, as operadoras rodoviárias nem têm que se ajustar ou que competir. O estado continua a prejudicar as suas empresas em detrimento do sector privado, mas muito mais grave, privará amanhã dezenas de pessoas de fazer a sua vida normal. Já para não dizer que se sobrepõe à REFER na tomada de decisões de gestão da infra-estrutura ferroviária. Mais me parece que estamos a gastar desnecessariamente dinheiro como uma empresa gestora das vias-férreas uma vez que a Secretaria de Estado e o Ministro tudo parecem saber sobre o assunto.
Se a REFER fosse dotada dos meios necessários para intervir em todo o pais de igual forma, se calhar estávamos hoje a seguir a tendência que existe em todos os países da Europa: reabrir linhas férreas… não fechá-las.
Vamos mais uma vez esperar para ver… se bem que o destino da linha do Tua, do Corgo e do Tâmega (e muito provavelmente do Douro acima do Marco de Canaveses) esteja já há muito traçado e passe pelo encerramento. E já que esta noticia surge no Expresso, citando a Lusa que recupera declarações do Governo Civil, a ver se desta vez este órgão mostra mesmo que tem alguma influencia. Cavaco Silva, o mentor do encerramento de quase 1000km de via-férrea em Portugal está por Trás-os-Montes, era interessante perceber de que forma estas medidas são interessantes para a região, segundo o seu ponto de vista.
 
Luís Manuel Almeida
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publicado por Luís Almeida às 00:17