A Alta Velocidade foi um dos temas fortes da campanha eleitoral dos últimos dias. Os partidos tudo fizeram para trazer as grandes obras para a campanha já que parece que as obras públicas se tornaram tema fracturante na nossa sociedade. 
 
O que é certo é que o investimento público, se bem feito, não tem absolutamente nada de fracturante e é, se preferir, um “mal necessário”. É talvez o caso da AV, nas ligações internacionais, nem tanto nas ligações nacionais. E digo isto numa lógica de prioridade, até porque grande parte do “bem feito” no que toca a investimento em obras públicas depende decisivamente do estabelecimento de prioridades. Lisboa-Madrid, Porto-Vigo mas sobretudo Aveiro-Salamanca terão claramente que ser prioridades sobre Lisboa-Porto, Lisboa-Faro e Faro-Sevilha.
 
E neste aspecto Manuela Ferreira Leite tem razão ao dizer que estamos a deixar-nos guiar ao sabor de Espanha. Nesta matéria Portugal portou-se como verdadeira província espanhola acatando sem reclamar os caprichos de Madrid. Ora vejamos:
 
 - em função da nova localização do aeroporto e de novos estudos para a entrada da AV em Lisboa, Portugal adoptou uma nova rede com o “T” inicialmente colocado no Entroncamento/Pombal a ser deslocado para a margem sul e já sem a configuração de “T” – Do lado espanhol a ligação a Madrid faz agora um grande “S” logo após a fronteira, com o comboio a andar umas dezenas de quilómetros adicionais só para encaixar naquilo que os espanhóis não quiseram alterar. Ou seja o percurso é muito mais extenso do que se fosse estudada uma ligação, em aproximadamente, linha recta.
 
 - a opção politica portuguesa de não considerar a ligação Aveiro-Salamanca e que os espanhóis agradeceram, mas que do seu lado vão concretizar, torna toda a rede dependente, em “estrela” da capital espanhola. Ou seja, todos os caminhos vão dar a Madrid numa rede feita como mandam as regras se quisermos fazer depender toda uma região de determinada cidade central. Com Aveiro-Salamanca, Portugal teria uma ligação mais rápida e directa ao resto da Europa e a França. Com a actual rede tem que se passar obrigatoriamente por Madrid.
 
- Espanha decidiu converter a sua rede ferroviária de mercadorias para bitola europeia, isolando tecnicamente Portugal onde a bitola utilizada é outra. Com esta medida o escoamento dos portos portugueses, entre outros, fica fatalmente condicionado privilegiando portos espanhóis que, como é óbvio não estão tão bem localizados como os portugueses.
 
- Espanha construiu um aeroporto internacional junto a Badajoz, bem junto à fronteira, com vocação de captar voos intercontinentais, a mesma que o futuro aeroporto de Lisboa.
 
Em matéria de transportes, Manuela Ferreira Leite tem toda a razão e mais alguma. Portugal tem sido uma província espanhola e isso é inadmissível já que contraria inclusivamente as directivas comunitárias para o desenvolvimento das regiões. Uma rede integrada com Espanha é uma coisa, uma rede concebida para se concentrar em Madrid é outra completamente diferente. É, por isso bom, que alguém bata na mesa e diga basta!
 
Quanto à AV em si, mantenho as minhas dúvidas relativamente às prioridades. Portugal deverá executar todas as linhas previstas na Figueira, mas deverá, em tempos de crise e contenção como os actuais, concentrar-se nas ligações prioritárias que eu considero serem as internacionais. E como já é tarde para se mudar, venha lá esta Lisboa-Madrid, que apenas servirá os interesses de Espanha. Pode ser que futuramente as coisas ainda se remedeiem.
 
Viva Portugal!
 
 
A vermelho a rede AV em funcionamento, a azul a rede prevista, a verde as ligações portuguesas previstas.
 
 
Luís Almeida
publicado por Luís Almeida às 09:07