Ao descer ao vale do Douro esta noite e enquanto contemplava o sucessivo relampejar em várias frentes que a espaços iluminava uma das mais belas paisagens do universo pensava sobre que motivos podem levar a alguns de nós mantermo-nos teimosamente por cá.

 

     No caso do Douro existe algo mais que o chamamento telúrico. Tem que haver! Observar a agressividade com os raios rasgavam o céu tocando o cume das encostas que ladeiam o rio que se veste de ouro todos os fins de tarde apercebi-me que o Douro é um misto antagónico de emoções.

 

     Neste vale cortado à pressa por um rio que a lenda diz se ter atrasado relativamente aos seus irmãos e por isso não teve tempo de escolher cuidadosamente o seu caminho há a cada momento um misto de todo em troca de quase nada. Há frio e há calor, há sol e há chuva, há os elementos da natureza em perfeita comunhão ou em combate e revoltados com o Homem dando a ideia de vingança… talvez como hoje.

 

     Estar no Douro ao longo de um ano faz-nos perceber que os montes estão efectivamente no mesmo sitio mas a paisagem é a cada dia diferente. Todas as semanas e todos os dias as cores alteram-se, os cheiros diversificam-se e tudo sem o dedo do Homem. É talvez a mudança diária por exclusiva vontade da Mãe Natureza que faz com que todos os dias olhemos pela janela e tenhamos a sensação de que ainda não tínhamos contemplado verdadeiramente a paisagem. Há sempre uma cor, um detalhe, um pormenor diferente do dia anterior. Por mais que contemplemos o vale do Douro não nos cansamos, renascemos e revisitamo-nos por outro lado com a sensação de estar sempre em sítios diferentes e ao mesmo tempo no mesmo sitio.

    

     O Douro tem que ser contemplado e desfrutado com paciência longe dos stressantes timings dos tempos modernos. Passar um fim-de-semana do Douro permite, com muita sorte, perceber a grandeza cultural e paisagística desta região mas depois de 25 anos nesta região garanto-vos que ainda não descobri todos os detalhes que a fazem grande e com tão promissor potencial.

 

     Como diz o outro… se eu podia viver noutro sitio qualquer? Podia! Mas não era definitivamente a mesma coisa.

 

Luís M. M. Almeida

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publicado por Luís Almeida às 23:04