ILAÇÕES DE UM BOICOTE


Apesar dos apelos de alguns cidadãos pinhoenses, registou-se mesmo um boicote às eleições presidenciais que não tiveram, a nível nacional, o eco esperado como seria de antever.


Foram apenas duas as freguesias que ontem não quiseram votar para as eleições presidenciais e uma delas o Pinhão. Na outra, Paços, a razão foi uma alegada incompatibilidade politica o que demonstra uma certa falta de maturidade de democrática, a do Pinhão pecou pela responsabilização das pessoas erradas pelo que o Pinhão tem sofrido.


Já muito rebati que os argumentos apresentados para este boicote têm uma validade frágil e dúbia, remeto para o meu último texto neste blog para essa explicação. È que este boicote nada contribui para a mudança da minha opinião cimentando aliás alguns dos meus argumentos.


Prefiro referir-me ao panfleto distribuído com a cumplicidade das casas comerciais em que se dizia “que não queremos ser uma colónia de férias”. Não tendo sido assinada esta declaração o seu conteúdo faz-nos reflectir seriamente sobre a sua proveniência dadas as circunstâncias em que este boicote ocorreu.


Dizer que o Pinhão não pretende ser uma colónia de férias demonstra uma falta de visão enorme no campo político e estratégico no contexto local. O Pinhão não é já uma terra de pescadores que sobrevive à custa da actividade económica das suas casas comerciais e quintas. Os desafios são outros e as fontes de rendimento passam indiscutivelmente pelo turismo e pela sua eficiente gestão. É gravíssima esta afirmação e demonstra uma lacuna grave nas aspirações desta terra. É o turismo e o facto desta ser uma colónia de férias que se vão segurando serviços como a CP e que vão sobrevivendo algumas casas de produtos regionais e mesmo aquele que é o maior de desenvolvimento do Pinhão, o Vintage House. É no turismo que o Pinhão se deve posicionar estrategicamente para daí tirar dividendos e não concentrarem-se contra essa facto mais do que assumido. Podem existir outras motivações e o desejo de recuperação do ambiente cosmopolita que Miguel Torga falou e que o Pinhão perdeu. Mas além de ser tarde demais, já lá vão quase 30 anos, não existem sintomas de um plano de recuperação integrado que vise atingir esses objectivos.


Sejamos realistas o Pinhão é uma terra de turismo e sobreviverá à desertificação enquanto aceitar essa realidade e motivar o interesse dos potenciais turistas. Os comboios apenas trazem turistas e a população reduziu em 300 habitantes em menos de 5 anos. Estes são os verdadeiros problemas do Pinhão, a ponte, os CTT, a CP e a GNR são apenas as consequências da desertificação e desinteresse nesta terra.


Para já não falar que se estão a culpar os responsáveis errados por esta situação. Vivemos num clima de crescente competitividade e inovação e enquanto o Pinhão se mantiver parado no tempo à espera de proteccionismo político, quer do governo civil, quer do governo central ou mesmo da câmara municipal tudo continuará na mesma. É necessário que se dêem ouvidos àqueles que verdadeiramente são desta terra e pretendem torná-la naquilo que deve ser e aí sim unir-se toda a população em prol de um objectivo comum digno e realmente construtivo. Não me parece que situações de crime possam ajudar a esta situação. Já chega de menosprezar por coisas pequeninas aqueles que verdadeiramente têm capacidade de chegar longe com esta terra e sobretudo aqueles que estão dispostos a vestir a camisola com o brasão do Pinhão ao peito.


Da minha turma na escola primária do Pinhão, cerca de 20 alunos, conto pelos dedos aqueles que estão dispostos a vestir uma camisola que tem sido amarrotada sucessivamente.


Está na altura de fazer mais do que boicotes…


Luís Almeida


LEC IST2006

publicado por Luís Almeida às 14:32